O termo “educação” vem do latim ēducātiō e significa o ato de criar. Educar é proporcionar que o aluno enquanto interlocutor também possa criar. Ensinar é um processo criativo, exercido pelos mais longínquos humanos de nossa história. Todavia, nem sempre a transmissão do conhecimento e o desenvolvimento do pensamento crítico foram um direito universal. Na Grécia antiga, por exemplo, somente os verdadeiros cidadãos – cujos pais eram nascidos em terras gregas – é que possuíam o privilégio de criar. As academias gregas do século IV a. C eram povoadas, por sua vez, de uma elite de cidadãos que dominava o processo criativo, e por seu turno, desenvolveram formas de política, de filosofia e de arte, o que lhes possibilitou exercer domínio físico e intelectual sobre outros povos. Dentre tantos exemplos, a universalidade da educação ficou restrita as camadas mais poderosas durante toda a idade antiga e boa parte da era medieval, um período que percorreu centenas de anos.

Foi somente com a ascensão dos ideias Renascentistas no século XVI e Iluministas do século XVIII que o mundo começou a valorizar o conhecimento e o desenvolvimento criativo da razão. A população humana deveria e poderia, segundo os pensadores destes dois movimentos, expandir seus saberes, e assim garantir o aumento significativo na qualidade de vida. Dominar a natureza, por meio do conhecimento, garantiria que males como as doenças e a fome fossem superados; assim como, conhecer as leis do Estado e os direitos civis proporcionariam o surgimento de novos regimes políticos, baseados na democracia e na vontade geral dos valores republicanos.

 

Inauguração do projeto Universidade Cidadã, na comunidade Tamarutaca em Santo André.

No Brasil as ideias iluministas chegaram de forma lateral, não sendo absorvidas em sua totalidade. Falar sobre igualdade e liberdade em meio ao auge escravocrata não fazia o menor sentido no século XIX, por exemplo. Além disso, como diria Roberto Schwartz, no Brasil as ideias sempre estiveram deslocadas; o que não seria diferente com a educação. Devido a colonização portuguesa e estritamente católica, cuja modelo educacional favorecia o ensino apenas das elites econômicas, a tradição brasileira restringia a educação as castas mais abastadas, muitas vezes enviando seus primogênitos para estudar em universidades europeias de renome. Essa tradição educacional excludente alcançou a década de 1860 com apenas 10% da população brasileira matriculada na Escola Primária, e dessa população ainda predominavam os meninos.

O período republicano a partir de 1889 buscou modificar a estrutura educacional brasileira. Durante todo o século XX diversas iniciativas buscaram repensar a educação. Isso aconteceu com a Constituição de Vargas em 1937, com o manifesto da Escola Nova, de forma autoritária com o golpe de 1964 e o “mobral” e com as diversas tentativas de estabelecer diretrizes e bases na educação, finalizadas na década de 1990. Nenhuma dessas iniciativas, por sua vez, fez com que o ensino superior fosse universalizado, alcançando as camadas médias e mais pobres da população.

O século XXI prometia modificar essa estrutura. O Reuni – Reestruturação e expansão das universidades federais – e o Prouni – Programa Universidade Para todos – garantiriam um acesso à educação superior pelas grandes massas, utilizando-se do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) como processo seletivo, um dos maiores do mundo. Entretanto, ainda havia uma barreia a ser superada: como garantir o acesso ao ensino superior de jovens e adultos desprestigiados em sua formação fundamental e média? Cotas para escolas públicas resolveriam parte dessa questão, mas ainda seria pouco para que a grande massa de jovens pudesse adentrar a universidade pública no Brasil.

Projeto Universidade Cidadã – Assista ao vídeo do projeto Aqui

Iniciativas tais como as da Noc Educação auxiliam o ingresso de jovens e adultos de escola pública no ensino superior. Por meio de financiamentos cruzados e coletivos, a Noc Educação se projeta no cenário nacional com o objetivo de modificar este quadro excludente da educação brasileira. Hoje o curso preparatório conta com 90% de vagas ocupadas por alunas e alunos oriundos de escolas públicas. Além disso, a Noc Educação participa ativamente de projetos que busquem a expansão do acesso ao ensino superior de adultos tais como os aulões gratuitos e do Universidade Cidadã, curso pré-vestibular oferecido em diversas periferias de grandes cidades do país, cujas vagas e materiais são 100% gratuitos. A partir dessas iniciativas, jovens estudantes encontram enfim um espaço para exercer sua criatividade e potencializar o desenvolvimento do pensamento crítico, ferramentas essenciais para se idealizar um novo país e um novo mundo.